terça-feira, 23 de outubro de 2012

24 - O LIVRO DE JEREMIAS


  • Autor: Jeremias
  • Tema: O Juízo Divino e Inevitável de Judá
  • Data: Cerca de 585 - 580 a.C.

Considerações Preliminares


O ministério profético de Jeremias foi dirigido ao Reino do Sul, Judá, durante os últimos quarenta anos de sua história (626 - 586 a.C.). Ele viveu para ser testemunha das invasões babilônicas de Judá, que resultaram na destruição de Jerusalém e do templo. Como o chamado de Jeremias propunha-se que ele profetizasse à nação durante os últimos anos de seu declínio e queda, é compreensível que o livro do profeta esteja cheio de prenúncios sombrios.

Jeremias, filho de sacerdote, nasceu e cresceu na aldeia sacerdotal de Anatote (mais de 6 km ao nordeste de Jerusalém) durante o reinado do ímpio rei Manassés. Jeremias começou seu ministério profético durante o décimo-terceiro ano do reinado do bom rei Josias, e apoiou  seu movimento de reforma. Não demorou para perceber, no entanto, que as mudanças não estavam resultando numa verdadeira transformação de sentimentos do povo. Jeremias advertiu que, a não ser que houvesse verdadeiro arrependimento em escala nacional, a condenação e a destruição viriam de repente.

Em 612 a.C., a Assíria foi conquistada  por uma coalizão babilônica. Cerca de quatro anos depois da morte do rei Josias, o Egito foi derrotado por Babilônia na batalha de Carquemis (605 a.C.; ver Jeremias 46.2). Naquele mesmo ano o exército babilônico de Nabucodonosor invadiu a Palestina, capturou Jerusalém e deportou alguns dos jovens mais seletos de Jerusalém para Babilônia, entre eles Daniel e seus três amigos. Uma segunda campanha contra Jerusalém ocorreu em 597 a.C., ocasião em que foram levados dez mil cativos à Babilônia, entre os quais Ezequiel. Durante todo esse tempo, as advertências proféticas de Jeremias a respeito do juízo divino iminente passaram desapercebidas pela nação. A última invasão babilônica tomou Jerusalém, o templo e a totalidade do reino de Judá em 586 a.C.

Este livro profético revela que Jeremias, freqüentemente chamado de "o profeta das lágrimas", era um homem com uma mensagem severa, mas de coração sensível e quebrantado (e.g., Jeremias 8.21 a 9.1). Seu espírito sensível tornou mais intenso o seu sofrimento, à medida que a palavra de Deus ia sendo repudiada por seus familiares e amigos, pelos sacerdotes e reis, e pela totalidade do povo de Judá. Embora fosse solitário e rejeitado durante toda a sua vida, Jeremias não deixou de ser um dos mais ousados profetas. Apesar da grande oposição, cumpriu fielmente sua chamada profética para advertir seus concidadãos de que o juízo divino estava às portas. Resumindo a vida de Jeremias, certo escritor disse: "Nunca foi imposto sobre um homem mortal fardo mais esmagador. Em toda história da raça judaica, nunca houve semelhante exemplo de intensa sinceridade, sofrimento sem alívio, proclamação destemida da mensagem de Deus e intercessão incansável de um profeta em favor do seu povo como se observa no ministério de Jeremias. Mas a tragédia de sua vida foi esta: pregava a ouvidos surdos e só recebia ódio em troca do seu amor aos compatriotas" (Farley).

O autor do livro é indicado com clareza: Jeremias (Jr 1.1). Depois de profetizar durante vinte anos a Judá, Jeremias foi ordenado por Deus a deixar a sua mensagem por escrito. Assim o fez, ao ditar suas profecias a seu fiel secretário, Baruque (Jr 36.1-4). Visto que Jeremias estava proibido de comparecer diante do rei, enviou então Baruque para ler as profecias no templo. Depois disso, Jeudi as leu diante do rei Joaquim. O monarca demonstrou desprezo a Jeremias e à palavra do Senhor ao cortar e queimar o rolo (Jr 36.22,23). Jeremias voltou a ditar suas profecias a Baruque, e dessa vez incluiu até mais do que estava no primeiro rolo.

Propósito


O livro foi escrito: (1) para fornecer um registro permanente do ministério profético de Jeremias e sua mensagem; (2) para revelar o inevitável juízo divino por ter o povo transgredido o concerto e persistido em sua rebelião contra Deus e Sua palavra; e (3) para demonstrar a autenticidade e autoridade da palavra profética. Muitas das profecias de Jeremias foram cumpridas durante a própria vida do profeta (e.g., Jr 16.9; 20.4; 25.1-14; 27.19-22; 28.15-17; 32.10-13; 34.1-5); outras, que envolviam o futuro distante, foram cumpridas posteriormente, ou ainda estão por se cumprir (e.g., Jr 23.5,6; 30.8,9; 31.31-34; 33.14-16).

Visão Panorâmica


O livro é essencialmente uma coletânea de profecias de Jeremias, dirigidas principalmente a Judá (Jeremias 2 a 29), mas também a nove nações estrangeiras (Jr 46 a 51); estas profecias focalizam principalmente o juízo, embora haja algumas que dizem respeito  à restauração (ver especialmente os caps. 30 a 33). Essas profecias não estão dispostas numa ordem rigidamente cronológica ou temática, embora o livro de Jeremias tenha a estrutura global indicada no esboço. Parte do livro está escrita em linguagem poética, ao passo que outras têm a forma de prosa ou narrativa. Suas mensagens proféticas estão entrelaçadas com os seguintes aspectos históricos: (1) a vida e ministério do profeta (e.g., caps. 1; 34 a 38;  40 a 45); (2) a história de Judá, principalmente durante o período dos reis: Josias (caps. 1 a 6), Joaquim (caps. 7 a 20), e Zedequias (21 a 25; 34), inclusive a queda de Jerusalém (cap. 39), e (3) eventos internacionais que envolviam Babilônia e outras nações (25 a 29; 46 a 52).

Assim como Ezequiel, Jeremias pratica várias ações simbólicas a fim de ilustrar de modo claro a sua mensagem profética: exemplo, o cinto podre (Jr 13.1-14), a seca (Jr 14.1-9), a proibição divina de não se casar ou ter filhos (Jr 16.1-9), o oleiro e o barro (Jr 18.1-11), o vaso do oleiro, que se fragmentou (Jr 19.1-13), os dois cestos de figos (Jr 24.1-10), o jugo no seu pescoço (Jr 27.1-11), a compra de um terreno na sua cidade natal ((Jr 32.6-15) e as grandes pedras colocadas no pavimento de tijolos de Faraó (Jr 43.8-13). A compreensão clara que Jeremias tinha de sua chamada profética (Jr 1.17), juntamente com as frequentes reafirmações de Deus (e.g., Jr 3.12; 7.2,27,28; 11.2,6; 13.12,13; 17.19,20), capacitaram-no a proclamar com ousadia e fé a palavra profética a Judá, apesar de esta nação sempre reagir com hostilidade, rejeição e perseguição (e.g., Jr 15.20,21). Após a destruição de Jerusalém, Jeremias foi levado contra sua vontade ao Egito, onde continuou profetizando até a sua morte (caps. 43 e 44).

Características Especiais

 
Sete aspectos principais caracterizam o livro de Jeremias: (1) É o segundo maior livro da Bíblia, pois contém mais palavras (não capítulos) do que qualquer outro livro, exceto Salmos. (2) A vida e as tribulações pessoais de Jeremias como profeta são reveladas com maior profundidade e detalhes do que as de qualquer outro profeta do Antigo Testamento. (3) Está permeado com as tristezas, angústias e prantos do "profeta das lágrimas" por causa da rebeldia de Judá. Apesar de sua mensagem severa, Jeremias sentia tristeza e quebrantamento profundos por causa do povo de Deus. Mesmo assim, sua maior lealdade era dedicada a Deus, e sua mais profunda tristeza era a mágoa sofrida por Deus. (4) Sua palavra-chave é "rebelde" (usada treze vezes), e seu tema perpétuo é o inescapável juízo divino em retribuição à rebeldia e apostasia. (5) Sua maior revelação teológica é o conceito do "novo concerto", que Deus estabeleceria com seu povo fiel num tempo futuro de restauração (Jr 31.31-34). (6) Sua poesia é tão eloquente e lírica quanto qualquer outra obra poética da Bíblia, com uso abundante de metáforas excelentes, frases vívidas e passagens memoráveis. (7) Há mais referências à nação de Babilônia nas profecias de Jeremias (164) do que em todo o restante da Bíblia.

O Livro de Jeremias ante o Novo Testamento


O emprego principal do livro de Jeremias no Novo Testamento diz respeito à sua profecia de um "novo concerto" (Jr 31.31-34). Embora Israel e Judá tivessem transgredido, repetidas vezes, os concertos com Deus, sendo, posteriormente, arruinados como castigo por sua rebeldia, Jeremias profetizou a respeito de um dia em que Deus faria com eles um novo concerto (Jr 31.31). O Novo Testamento deixa claro que esse novo concerto foi instituído com a morte e ressurreição de Jesus Cristo (Lc 22.20; cf. Mt 26.26-29; Mc 14.22-25), está sendo cumprido agora na igreja, que é o povo de Deus segundo o novo concerto (Hb 8.8-13), e chegará ao seu clímax na grande salvação de Israel (Rm 11.27). Outras passagem messiânicas de Jeremias aplicadas a Jesus Cristo no Novo Testamento são: (1) o Messias como o Bom Pastor e o Justo Renovo de Davi (Jr 23.1-8;ver Mt 21.8,9;Jo 10.1-18; 1 Co 1.30; 2 Co 5.21); (2) o choro amargo em Ramá (Jr 31.15), cumprido na época em que Herodes procurou matar o menino Jesus (ver Mt 2.17,18), e (3) o zelo messiânico pela pureza da casa de Deus (Jr 7.11), demonstrado por Jesus quando purificou o templo (ver Mt 21.13; Mc 11.17; Lc 19.4).



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BIBLIOGRAFIA
Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, Edição de 1995, ano 2002, pp. 1078, 1079 e 1080.