quarta-feira, 12 de julho de 2017

DECLARAÇÃO DE FÉ DAS ASSEMBLEIAS DE DEUS NO BRASIL




Foi votada e aprovada na 43ª AGO/2017, encontro nacional da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB),  a Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil. "Trata-se... de um material didático para ajudar as igrejas no preparo dos candidatos ao batismo e também na formação espiritual dos novos convertidos, bem como mostrar para a sociedade aquilo em que nós cremos e aquilo que praticamos...". 

Publicaremos aqui no Blog algumas partes da nossa Declaração de Fé, começando pela Introdução e no que cremos. Sempre que julgar necessário, acrescentaremos comentários, a fim de proporcionarmos aos leitores e leitoras uma melhor compreensão da nossa regra de fé e conduta.    


INTRODUÇÃO 


Credo, confissão de fé, regra de fé ou declaração de fé são interpretações autorizadas das Escrituras Sagradas aceitas e reconhecidas por uma igreja ou denominação. Todas as igrejas ou denominações no mundo possuem algum tipo de conjunto de crenças, seja ele escrito ou não, não importando o nome dado aos ensinos que norteiam a vida da instituição cristã. A Bíblia é a Palavra de Deus e a única autoridade inerrante para a nossa vida. Não é um credo, mas, sim, sua fonte primária. Na explicação de Philip Schaff, “A Bíblia é a Palavra de Deus ao homem; o Credo é a resposta do homem a Deus. A Bíblia revela a verdade em forma popular de vida e fato; o Credo declara a verdade em forma lógica de doutrina. A Bíblia é para ser crida e obedecida; o Credo é para ser professado e ensinado”. Em outras palavras, a Bíblia precisa ser interpretada e compreendida para uma adoração consciente a Deus.

A Igreja não dispunha de credos ou de qualquer formulação doutrinária formalizada no período apostólico. Era um tempo em que a produção dos livros do Novo Testamento ainda estava em andamento. Logo no século II, surgiu a necessidade de se organizar os pontos mais significativos da fé cristã, pois, desde muito cedo na história do cristianismo, surgiram controvérsias e heresias que questionavam o verdadeiro ensino cristão. Diante disso, era chegada a hora de “responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pe 3.15). Assim, começaram a aparecer as primeiras regras de fé sintetizando a doutrina cristã. Esses documentos tinham por objetivo sintetizar as doutrinas essenciais do cristianismo para facilitar as confissões públicas e conservar o pensamento cristão contra as heresias. Essas formulações foram sendo aperfeiçoadas e tornaram-se conhecidas como credos ou símbolos. O termo “credo” vem do latim credo e significa “creio, deposito confiança”. Trata-se de uma confissão de gratidão à glória de Deus. Símbolo, do grego symbolon, significa literalmente “arremessar junto, comparar”, sendo, porém, usado em referência a qualquer declaração formal, seja credo, confissão de fé ou catecismo.

Os credos considerados universais são conhecidos como “credos ecumênicos”, visto que a sua aceitação é ampla e não se restringe a uma ou outra região. Os principais são o Credo dos Apóstolos, século II; o Credo Niceno (325 d.C.); o Credo Niceno-Constantinopolitano (381 d.C); o Credo de Calcedônia (451 d.C); e o Credo de Atanásio (cerca do ano 500). Seu conteúdo consta aqui neste Apêndice, demonstrando que temos muitos pontos em comum com os primeiros cristãos. Esses credos são geralmente aceitos por católicos romanos, ortodoxos gregos e protestantes, pois seu conteúdo é comum às principais religiões que ostentam a bandeira de Cristo. As seitas ou grupos religiosos heterodoxos rejeitam esses credos.

A confissão de fé é mais elaborada do que os credos ecumênicos, que são uma fórmula de fé pessoal e começam com “creio” ou “cremos”. O termo “confissão” era usado no princípio para descrever o testemunho dos mártires, a começar pelo próprio Senhor Jesus Cristo: “[...] e de Cristo Jesus, que diante de Pôncio Pilatos deu o testemunho de boa confissão” (1 Tm 6.13). É, porém, comumente usado nas declarações formais da fé cristã pelos reformadores. As confissões de fé são marcas do período da Reforma, e as principais são as seguintes: Confissão de Augsburgo, de Lutero (1483–1546), elaborada por Filipe Melânchton (1497–1560) em 1530; as Confissões Helvéticas, a primeira em 1534, e a segunda em 1566, esta última preparada por Heinrich Bullinger (1504–1575), sucessor de Ulrico Zuínglio (1484–1531); a Confissão de Fé Gaulesa, preparada em 1559 por João Calvino (1509–1564); a Confissão de Fé Escocesa, de 1560, preparada por uma comissão liderada por John Knox (1513–72); a Confissão Belga, de 1561, preparada por Guido de Brès ou Guy de Bray (1522–67); o Catecismo de Heidelberg, escrito por Zacarias Ursino (1534–1583) e Gaspar Oleviano em 1567; os Trinta e Nove Artigos de Religião preparados originalmente em 1552, em Londres, por Tomás Cranmer (1489–1556), com 42 artigos, os quais sofreram minuciosa revisão em 1563 por Matthew Parker (1504–1575), arcebispo da Cantuária, com o corte de três artigos — é a confissão de fé da Igreja Anglicana. O arminianismo holandês no ano de 1610 articulou uma breve declaração teológica em cinco pontos, assinada por 44 ministros e apresentada ao Estado Holandês, chamada Remonstrância (termo que se origina de “remonstrare”, do latim medieval, cujo significado é “protestar, expor, manifestar”). Em 1618, houve uma ampliação na explicação desses cinco pontos, que foi denominada “Opiniões dos Remonstrantes”. Posteriormente, Simão Episcópio (1583–1643) escreveu “A Confissão Arminiana” de 1621, ratificando as crenças arminianas. E por fim, temos a Confissão de Fé de Westminster, que foi produzida na Abadia de Westminster em Londres, a pedido do Parlamento Britânico, entre 1643 e 1647; trata-se da última confissão de fé da Reforma.

Daniel Berg e Gunnar Vingren
A obra Declaração de Fé é um documento eclesiástico que organiza, de forma escrita e sistemática, as crenças e práticas das Assembleias de Deus no Brasil que já são ensinadas nas igrejas desde a chegada ao país dos missionários fundadores, Daniel Berg (1884–1963) e Gunnar Vingren (1879–1933). O contexto social e político por si só exige uma definição daquilo em que a Igreja crê e daquilo que professa desde as suas origens. A Bíblia é a nossa única fonte de autoridade, a inerrante, infalível, completa e inspirada Palavra de Deus. As Escrituras Sagradas, no entanto, precisam ser interpretadas para que todos conheçam a sua mensagem. Assim sendo, o conteúdo dos 24 capítulos da Declaração de Fé são as interpretações autorizadas das Escrituras e os ensinos oficiais das Assembleias de Deus no Brasil.

Isael de Araújo, historiador da Assembleia de Deus, num resumo histórico sobre o “Cremos”, trouxe-nos informações sobre a preocupação dos nossos primeiros missionários em expressar aquilo em que cremos e aquilo que praticamos. Gunnar Vingren publicou em 16 de abril de 1919, no jornal Boa Semente, um artigo intitulado “O que nós cremos”, com as linhas mestras de nossas crenças. Essa matéria foi reeditada no jornal O Som Alegre em março de 1930. Nesse mesmo ano, na primeira Assembleia Geral da CGADB, os dois jornais fundiram-se num só, recebendo o nome de Mensageiro da Paz, desde então publicado ininterruptamente como órgão oficial das Assembleias de Deus no Brasil. O missionário sueco Otton Nelson (1881–1982) publicou em janeiro de 1931, no Mensageiro da Paz, um artigo intitulado “O que ensinamos”. Em outubro de 1938, o missionário americano Theodoro Richard Stohr, que servia no interior de São Paulo, publicou, no mesmo periódico, um “Cremos” intitulado “Em que creem os pentecostais”. Nas décadas de 1960 e 1970, ainda que o tema não tenha sido item oficial dos temários, as reuniões convencionais debateram se as Assembleias de Deus deveriam ter um Credo. Os contrários diziam que isso era coisa de católicos e de protestantes tradicionais, uma vez que a Bíblia é o nosso Credo. Outros defendiam a elaboração de um documento dessa natureza. “O Cremos que temos hoje”, diz Isael de Araujo, “passou a ser publicado no Mensageiro da Paz a partir de junho de 1969. Desde então, esse documento tem sido submetido a revisões”.

O nosso “Cremos”, publicado em cada edição do jornal Mensageiro da Paz, tem sido o único documento oficial da Igreja que expressa nosso pensamento doutrinário. Agora, o referido texto passa a ser o extrato da Declaração de Fé como verdades centrais de nossa denominação. Os dezesseis artigos de fé do “Cremos” são explicados aqui na Declaração de Fé na mesma sequência de assuntos, sendo às vezes intercalados com alguns capítulos que tratam de temas ensinados pela Igreja, porém ausentes no “Cremos”.

A CGADB, sob a presidência do Pr. José Wellington Bezerra da Costa, nomeou uma Comissão Especial para elaborar nosso credo ou confissão de fé, aqui denominado Declaração de Fé. Trata-se de uma comissão composta por teólogos e ensinadores de nossa denominação com conhecimento não somente das Escrituras, mas também de nossa história e doutrina. A CPAD, por meio do seu diretor executivo, Ronaldo Rodrigues de Souza, deu incentivo e suporte para a produção do documento que o leitor tem em mãos.

A Comissão Especial pesquisou os credos ecumênicos e as principais confissões de fé históricas durante mais de um ano inteiro, examinando seu conteúdo, forma e apresentação. O trabalho desenvolvido será de importância na vida da Igreja como sumário doutrinário da Bíblia e ajuda para sua compreensão. A Declaração de Fé servirá como proteção contra as falsas doutrinas e contribuirá para a unidade do pensamento teológico para “que digais todos uma mesma coisa” (1 Co 1.10). Trata-se ainda de um material didático para ajudar as igrejas no preparo dos candidatos ao batismo e também na formação espiritual dos novos convertidos, bem como mostrar para a sociedade aquilo em que nós cremos e aquilo que praticamos. O documento identifica nossa marca pentecostal como denominação, mas o objetivo primordial é a glória de Deus.


Rio de janeiro, 24 de janeiro de 2017


Esequias Soares da Silva
Presidente da Comissão Especial



CREMOS


1. Na inspiração divina verbal e plenária da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé e prática para a vida e o caráter cristão (2 Tm 3.14-17);

2. Em um só Deus, eternamente subsistente em três pessoas distintas que, embora distintas, são iguais em poder, glória e majestade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; Criador do Universo, de todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, e, de maneira especial, os seres humanos, por um ato sobrenatural e imediato, e não por um processo evolutivo (Dt 6.4; Mt 28.19; Mc 12.29; Gn 1.1; 2.7; Hb 11.3 e Ap 4.11);

3. No Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, plenamente Deus, plenamente Homem, na concepção e no seu nascimento virginal, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal dentre os mortos e em sua ascensão vitoriosa aos céus como Salvador do mundo (Jo 3.16-18; Rm 1.3,4; Is 7.14; Mt 1.23; Hb 10.12; Rm 8.34 e At 1.9);

4. No Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade, consubstancial com o Pai e o Filho, Senhor e Vivificador; que convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo; que regenera o pecador; que falou por meio dos profetas e continua guiando o seu povo (2 Co 13.13; 2 Co 3.6,17; Rm 8.2; Jo 16.11; Tt 3.5; 2 Pe 1.21 e Jo 16.13);

5. Na pecaminosidade do homem, que o destituiu da glória de Deus e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo podem restaurá-lo a Deus (Rm 3.23; At 3.19);

6. Na necessidade absoluta do novo nascimento pela graça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus para tornar o homem aceito no Reino dos Céus (Jo 3.3-8, Ef 2.8,9);

7. No perdão dos pecados, na salvação plena e na justificação pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor (At 10.43; Rm 10.13; 3.24-26; Hb 7.25; 5.9);

8. Na Igreja, que é o corpo de Cristo, coluna e firmeza da verdade, una, santa e universal assembleia dos fiéis remidos de todas as eras e todos os lugares, chamados do mundo pelo Espírito Santo para seguir a Cristo e adorar a Deus (1 Co 12.27; Jo 4.23; 1 Tm 3.15; Hb 12.23; Ap 22.17);

9. No batismo bíblico efetuado por imersão em águas, uma só vez, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo (Mt 28.19; Rm 6.1-6; Cl 2.12);

10. Na necessidade e na possibilidade de termos vida santa e irrepreensível por obra do Espírito Santo, que nos capacita a viver como fiéis testemunhas de Jesus Cristo (Hb 9.14; 1 Pe 1.15);

11. No batismo no Espírito Santo, conforme as Escrituras, que nos é dado por Jesus Cristo, demonstrado pela evidência física do falar em outras línguas, conforme a sua vontade (At 1.5; 2.4; 10.44-46; 19.1-7);

12. Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme sua soberana vontade para o que for útil (1 Co 12.1-12);

13. Na segunda vinda de Cristo, em duas fases distintas: a primeira — invisível ao mundo, para arrebatar a sua Igreja antes da Grande Tribulação; a segunda — visível e corporal, com a sua Igreja glorificada, para reinar sobre o mundo durante mil anos (1 Ts 4.16, 17; 1 Co 15.51-54; Ap 20.4; Zc 14.5; Jd 1.14);

14. No comparecimento ante o Tribunal de Cristo de todos os cristãos arrebatados, para receberem a recompensa pelos seus feitos em favor da causa de Cristo na Terra (2 Co 5.10);

15. No Juízo Final, onde comparecerão todos os ímpios: desde a Criação até o fim do Milênio; os que morrerem durante o período milenial e os que, ao final desta época, estiverem vivos. E na eternidade de tristeza e tormento para os infiéis e vida eterna de gozo e felicidade para os fiéis de todos os tempos (Mt 25.46; Is 65.20; Ap 20.11-15; 21.1-4).

16. Cremos, também, que o casamento foi instituído por Deus e ratificado por nosso Senhor Jesus Cristo como união entre um homem e uma mulher, nascidos macho e fêmea, respectivamente, em conformidade com o definido pelo sexo de criação geneticamente determinado (Gn 2.18; Jo 2.1,2; Gn 2.24; 1.27).


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