quarta-feira, 12 de julho de 2017

EDWARD HALLET CARR: O HISTORIADOR E SEUS FATOS — REFLEXÃO



Quando eu ainda era Graduando do Curso de História da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), apresentei um trabalho à Professora Maristela Toma, Mestra em História Social pela UNICAMP e professora da disciplina Metodologia do Estudo da História. Trata-se de uma reflexão sobre o texto “O historiador e seus fatos”, do livro O que é história? de Edward Hallet Carr, fruto das conferências George Macaulay Trevelyan proferidas por ele, de janeiro a março de 1961, na Universidade de Cambridge.

Outro fato importante, por mim abordado no referido trabalho, é a tendência que predominava sobre a produção historiográfica nas épocas de Lord Acton e Sir George Clark, séculos XIX e XX, respectivamente, num intervalo de quase 60 anos. Como os historiadores escolhiam e “pescavam” os seus fatos? Como os preparavam e como os serviam?


SÉCULO XIX

os “peixes” de Lord Acton


Lord Acton, certamente, seguia o curso do rio quando, em 1896, falou sobre a “divisão criteriosa do trabalho” e ao acreditar na possibilidade de se produzir uma história definitiva. Curso do rio entenda-se pela efervescência do positivismo e do otimismo iluminista da época. Acton, assim como a maioria dos historiadores de seu tempo, olhava para os fatos históricos com um olhar científico, metódico. Sob o reforço do empirismo, via os documentos como objetos de culto e os reverenciava como a um deus que sempre fala a verdade. Assim sendo, o documento nunca deveria ser questionado: se ele disse que foi é porque foi. O fato histórico, por sua vez, não deveria ser contaminado pela interpretação do historiador.

Edward hallet Carr chamou a atenção para a visão “senso comum” da História ao dizer:

1(...) A história consiste num corpo de fatos verificados. Os fatos estão disponíveis para os historiadores nos documentos, nas inscrições e assim por diante, como os peixes na tábua do peixeiro. O historiador deve reuni-los, depois levá-los para casa, cozinhá-los, e então servi-los de maneira que o atrair mais (...)”. 

Se considerarmos os fatos como se fossem peixes, Acton e os demais historiadores da Escola Metódica, dita positivista, queriam que fossem servidos como num sushi, ou seja, cru. Temperá-los seria comprometer o sabor original que, traduzindo, seria alterar a “verdade” acerca dos fatos relatados nos documentos.

Sobre essa escola histórica, que se manifestou no século XIX, Bourdé e Martin disseram:

2A Escola Metódica quer impor uma investigação científica afastando qualquer especulação filosófica e avisando a objectividade (sic) absoluta do domínio da História; pensa atingir os seus fins aplicando técnicas rigorosas respeitantes ao inventário das fontes, à crítica dos documentos (...)”.

Já sobre a fetichização dos fatos e dos documentos no século XIX, Carr escreveu:

3Os documentos eram sacrários do templo dos fatos. O historiador respeitoso aproximava-se deles de cabeça inclinada e deles falava em tom reverente. Se está nos documentos é porque é verdade (...)”.

Percebemos que para os historiadores positivistas do século XIX e seus seguidores não havia espaço para a subjetividade. Os peixes (fatos) estão na tábua do peixeiro (documentos, inscrições, etc.) de forma objetiva e devem ser tratados com objetividade. Agia-se, então, sem indagações, o que levava os historiadores a perderem tempo com uma história que, segundo Carr, “consiste na compilação de um número máximo de fatos irrefutáveis e objetivos”.

Mas que tipo de “peixe” os historiadores positivistas do século XIX procuravam na “tábua do peixeiro”? O espírito nacionalista da época impulsionou tais historiadores, a exemplo de Leopold Von Ranke, a cultuarem os grandes fatos históricos e seus personagens centrais. A Alemanha, por exemplo, vivia a construção do Estado Alemão e necessitava de heróis. Os fatos que interessavam eram aqueles de interesse nacional. Os feitos do passado eram registrados, oficializados, fetichizados e idolatrados.

É bom lembrarmos que os historiadores positivistas alemãs do século XIX divergiam dos historiadores classificados como românticos, pois estes contemplavam a história de forma sentimental, nostálgica, e não admitiam a análise fria dos fatos. Os historiadores positivistas, por sua vez, pensavam de forma contrária, como escreveu a Professora Vavy Pacheco:

4(...) Para os historiadores positivistas, os fatos levantados se encadeiam como que mecânica e necessariamente, numa relação determinista de causas e consequências (ou seja, efeitos). A história por eles escrita é uma sucessão de acontecimentos isolados, relatando sobretudo os efeitos políticos de grandes heróis, os problemas dinásticos, as batalhas, os tratados diplomáticos, etc. ”

Considerando, pois, os fatos históricos como “peixes” e os documentos, inscrições, etc., como “tábua do peixeiro”, então os historiadores do século XIX e início do século XX, ditos positivistas, não pescavam seus peixes, mas os pegavam na tábua do peixeiro e, como disse Edward Carr, “os cozinhavam e os serviam da maneira que os atraía mais”. Desprezavam a subjetividade como se fosse uma bactéria que contaminava e fazia apodrecer os seus “peixes”. Os documentos e os fatos deveriam ser tratados com neutralidade científica. Como numa peixaria com alto padrão de limpeza, os documentos deveriam fornecer os fatos como peixes frescos, prontos para o consumo.


SÉCULO XX

os “peixes” de Sir George Clark


Quase sessenta anos após as declarações de Acton, eis que surge um desafio aos cultuadores dos documentos e adoradores dos fatos. Os peixes já não eram mais vistos na peixaria; eles estavam nadando livremente num vasto oceano e poderiam ser pescados conforme a decisão do historiador. Sir George Clark quebrou o gelo da objetividade positivista quando declarou na sua introdução à segunda Cambridge Modern History, em 1957, que “não há verdade histórica objetiva”. Foi realmente um choque entre duas gerações de historiadores. Quanto a isso, Carr escreveu:

5O choque entre Acton e Sir George Clark é o reflexo da mudança de nossa visão global da sociedade no intervalo entre dois pronunciamentos.”.

O fato, que outrora era apenas como um objeto duro, inflexível, que não admite questionamentos, agora repousa, como disse Carr, “... numa decisão a priori do historiador.” Quanto ao documentos, às inscrições, etc., já não são mais considerados os únicos lugares onde podemos encontrar os fatos (peixes). A respeito disso Carr, mais uma vez, declara de forma metafórica:

6(...) Os fatos na verdade não são absolutamente como peixes na peixaria. Eles são como peixes nadando livremente num oceano vasto e algumas vezes inacessível; o que o historiador pesca dependerá parcialmente da sorte, mas principalmente da parte do oceano em que ele prefere pescar e do molinete que ele usa — fatores estes que são naturalmente determinados pela qualidade dos peixes que ele quer pegar. De um modo geral, o historiador conseguirá o tipo de fatos que ele quer.”.

A visão do historiador, a partir dos anos 1950 do século XX, realmente mudou. Ele não está mais preso ao documento como um cientista ao seu objeto. Ele não inclina mais a sua cabeça e fala dele em tom reverente. A subjetividade esmiúça documentos e lança holofotes sobre os fatos. Ainda que esteja nos documentos, precisa ser indagado, interpelado, questionado, interpretado e, se preciso, contraditado. O fato está ali, como um peixe a nadar em um determinado ponto do oceano a espera de quem o pesque. Não está na peixaria, pronto para ser levado para casa, depois cozido e servido. Ele depende do historiador para se tornar histórico.

O historiador e os peixes nadando num vasto oceano


Edward Hallet Carr, como já vimos, utilizou-se da metáfora para falar da relação do historiador com os seus fatos. Para entendermos melhor:

7Metáfora é uma figura de estilo (ou tropo linguístico), em que há a substituição de um termo por outro, criando-se uma dualidade de significado. ‘Amor é fogo que arde sem se ver’ — Luís de Camões. O termo fogo mantém seu sentido próprio — desenvolvimento simultâneo de calor e luz, que é produto de combustão de matérias inflamáveis, como, por exemplo, o carvão — e possui sentidos figurados — fervor, paixão, excitação, sofrimento, etc. Didaticamente, pode-se considerá-la (a metáfora) como uma comparação que não usa conectivo (por exemplo, ‘como’), mas que apresenta de forma literal uma equivalência que é apenas figurada. ‘Meu coração é um balde despejado’ — Fernando Pessoa.”.

O historiador diante de um vasto oceano representa o historiador diante de uma variedade de épocas e de espaços geográficos, estes o palco da ocorrência dos fatos e aquelas os diversos períodos temporais. Os peixes nadando livremente no oceano representam o sem-fim de fatos que ocorreram e estão ocorrendo nas diversas épocas e nos diversos lugares do globo terrestre. Algumas vezes esse oceano é inacessível porque em determinada época, em determinado lugar, nada foi registrado acerca dos fatos que ali ocorreram. Na concepção linear da história podemos tomar como exemplo o período determinado Pré-História, que antecede ao ano 4.000 a.C. e que, por ainda não existir a escrita, não houve consequentemente o registro dos fatos que elucidariam o modus vivendi dos povos daquelas distantes épocas, aumentando, assim, as conjecturas, como afirmou o Arqueólogo André Prous em seu livro O Brasil Antes dos Brasileiros. É bem verdade que em períodos mais recentes da História muita coisa também se encontra inacessível. Vejamos o que Carr falou sobre isso:

8(...) A história tem sido vista como um enorme quebra-cabeças com muitas partes faltando. Mas o problema principal não consiste em lacunas. Nossa imagem da Grécia no século V a.C. é incompleta, não porque tantas partes se perderam por acaso, mas porque é, em grande parte, o retrato feito por um pequeno grupo de pessoas de Atenas. Nós bem sabemos como a Grécia do século V era vista por um cidadão ateniense; mas não sabemos praticamente nada de como era vista por um espartano, um corintiano, ou um tebano — para não mencionar um persa, ou um escravo ou outro não-cidadão residente em Atenas.”.

Edward Hallet Carr
“(...) O que o historiador pesca dependerá parcialmente da sorte...”, pode-se dizer que se trata de um fato que ele escolhe e, ao começar sua pesquisa, descobre que o mesmo é de grande valia para o contexto histórico — ao lançar o anzol esperou pegar um robalo de 3 quilos e acabou pegando um canapu de 30 quilos. O fato que parecia trivial ao historiador, na verdade era uma parte importantíssima que estava faltando no “quebra-cabeça”.

“... mas principalmente da parte do oceano em que ele prefere pescar e do molinete que ele usa — fatores estes que são naturalmente determinados pela qualidade dos peixes que ele quer pegar...”. A parte do oceano em que o historiador prefere pescar simboliza a época e o lugar onde o fato escolhido aconteceu — a importância do fato escolhido para o contexto histórico é relativamente proporcional ao tempo e ao espaço geográfico de sua ocorrência. A qualidade do peixe, então, representa a importância do fato e sua pertinência histórica.

“... e do molinete que ele usa...”. Este, também, é um fator determinado pela “qualidade dos peixes que o historiador quer pegar”. Ora, se eu desejo pescar um Marlin Azul sei que só vou encontrá-lo em águas profundas, então o meu molinete será um Marine Sports MS 4000; a minha vara será uma Marine Super Cast OS 1102 H; a linha que utilizarei será de monofilamento 130 libras e o meu anzol um Maruseigo 20 — um Marlin Azul pode passar dos três metros de comprimento e pesar mais de trezentos quilos. Os recursos que um historiador precisa ter para efetuar as suas pesquisas devem ser compatíveis com o fato por ele escolhido.

Vavy Pacheco escreveu:

9O historiador deve trabalhar os documentos com muito cuidado e critérios rigorosos. Nesse trabalho é preciso muitas vezes o recurso e técnicas especiais. Por exemplo, para se conhecer a sociedade paulista do século XVII, são fundamentais os originais de inventários e testamentos da época (hoje em sua maioria impressos), guardados, para melhor conservação, dentro de latas, no Arquivo do Estado. Para lê-los é preciso o domínio das já faladas técnicas especiais. Na arqueologia, por inúmeras vezes a aliada fundamental da pesquisa histórica, usa-se muito a técnica do carbono 14 para identificar a época a que pertence um objeto bem antigo.”.

Se o historiador reside em Ilhéus, no litoral sul da Bahia, e escolhe pesquisar a vida de “Zé Carroceiro” que mora em seu bairro, certamente terá franco acesso às fontes primárias e não necessitará de muito esforço e recursos no desempenho do seu trabalho. Por outro lado, se ele decide pesquisar sobre a vida de Clotilde de Vaux — desde quando ela nasceu até entrar na vida de Augusto Comte, em 1845, vindo a se tornar, após sua morte em 1846, a virgem-mãe da igreja positivista —, obviamente necessitará de muitas fontes, muito esforço e muita pesquisa, o que significa muita leitura, quiçá visita a outro continente.

Todavia, mesmo a história de “Zé Carroceiro” pode vir a se tornar um fato histórico. Isso vai depender da forma como ela será interpretada e relacionada com o contexto histórico. Sobre isso escreveu Adam Schaff:

10(...) É portanto a interpretação que eleva os fatos vulgares ao nível dos fatos históricos ou, reciprocamente, que derruba estes últimos do seu pedestal.”.

É sempre bom dizer que o historiador não pode viver sem os seus fatos; não haveria nem o porque de ser historiador — é um relacionamento simbiótico. Citemos Edward Hallet Carr mais uma vez:

11(...) O historiador sem os seus fatos não tem raízes e é inútil; os fatos sem seu historiador são mortos e sem significado. Portanto, minha primeira resposta à pergunta ‘Que é História?’ é que ela se constitui de um processo contínuo de interpretação entre o historiador e seus fatos, um diálogo interminável entre o presente e o passado.”.

Diante do exposto, fica claro que sem o oceano não haveria peixes; sem peixes a figura do pescador seria inútil. Assim, o historiador vive em função dos fatos e estes, por sua vez, saem da vulgaridade e entram para a história por intermédio do historiador.

O historiador do século XX e a imensa diversidade de “peixes”

Com ênfase na subjetividade, os historiadores do século XX, a partir dos anos 1950, passaram a contar, como já exaustivamente abordado, com um vasto oceano cheio de peixes a nadar livremente. São fatos e mais fatos prontos para receberem a atenção e a simpatia dos historiadores que resolvam tirá-los do anonimato, da vulgaridade. Temos um exemplo citado por Carr, onde, em 1962, o Dr. Kitson Clark resolveu tratar, nas suas conferências Ford em Oxford, acerca de um fato ocorrido em 1850, quando “um vendedor de pão de gengibre, em consequência de uma pequena briga, foi morto a pontapés por uma multidão enfurecida”. A depender da interpretação, esse simples fato poderá tornar-se um fato histórico.

É claro que a subjetividade não deve ser motivo para o liberalismo desenfreado, como se qualquer um pudesse escrever qualquer coisa a respeito de qualquer fato. Mesmo em uma pescaria, não são todos os pescadores que possuem a técnica correta para pegar um Marlin Azul.

            Nem todo método positivista deve ser desprezado. O historiador precisa ter critérios que garantam a qualidade e a credibilidade do seu trabalho, mesmo que este seja o resultado da sua interpretação. Quanto a isto a Professora Vavy Pacheco escreveu:

Prof. Vavy Pacheco
12(...) O historiador examina sempre uma determinada realidade, que se passou concretamente em um tempo determinado e em um lugar preciso. Sua primeira tarefa é situar no tempo e no espaço o objeto que ele quer estudar... O trabalho do historiador tem procedimentos muito semelhantes aos do detetive: é uma pesquisa no sentido policial do termo, buscando indícios, provas e testemunhos, para encontrar os condicionamentos, os motivos e as razões... O importante e essencial é que o trabalho do historiador se fundamente numa pesquisa dos fatos comprovados concretamente (...).”.

Consciente do tipo de peixe que quer pescar, o pescador irá à parte certa do oceano e, certamente, saberá prepará-lo de forma que agrade ao seu paladar e ao dos seus amigos. Com o historiador não deve ser diferente: escolhido o fato, deverá saber onde e como pesquisá-lo e, depois, interpretá-lo de tal maneira que ele não venha a cair no ridículo e o seu trabalho seja lançado no limbo da história.

Os fatos estão aí, como uma diversidade de peixes nadando em um vasto oceano a espera de serem pescados. O historiador, assim como um pescador, deve estar preparado e capacitado para realizar o seu trabalho. Não é interpretar por interpretar; não é partir para o “achismo” sobre um determinado acontecimento. O senso comum deve passar por longe em uma produção historiográfica. Um pescador amador pode pegar qualquer tipo de peixe que não irá se importar; o historiador amador não se importará muito com os fatos com os quais irá lidar.

Os métodos positivistas tendem a colocar os fatos em redomas de vidro para serem cultuados como se sagrados fossem. Por outro lado, a subjetividade tende a criar armadilhas que podem lançar um historiador desavisado em parte do “oceano” onde ele se afogará — uma produção historiográfica mal concebida poderá, então, fazer afogar um grupo de pessoas que sobre ela se debruça e nela confia. 



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 


1CARR, Edward Hallet. Que é História? 1982, p. 45.
2BOURDÉ, Guy & MARTIN, Hervé. As Escolas Históricas, 1983, p. 97.
3CARR, Edward Hallet. Que é História? 1982, pp. 51 e 52.
4PACHECO, Vavy Borges. Que é História? 1993, p. 34.
5CARR, Edward Hallet. Que é História? 1982, p. 44.
6Idem. Que é História? 1982, p. 59.
7WIKIPÉDIA, A enciclopédia livre. Internet, 2009, http//pt.wikipedia.org/wiki/Met%C3%A1fora.
8CARR, Edward Hallet. Que é História? 1982, p. 49.
9PACHECO, Vavy Borges. Que é História? 1993, p. 64.
10SCHAFF, Adam. História e Verdade. 1995, p. 237.
11CARR, Edward Hallet. Que é História? 1982, p. 65.
12PACHECO, Vavy Borges. Que é História? 1993, pp. 59 e 60.


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